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Modos da Mente

A nossa mente é, provavelmente, a parte do corpo que menos conhecemos. Milhões de neurónios que se conectam entre eles, através de sinais bioelétricos (eletricidade no nosso cérbero what!?!), distribuídos por diferentes zonas, cada uma com sua função, entre elas o lobo frontal, temporal, parietal, occipital, cerebelo, tálamo… irra! ainda agora comecei a escrever já estou aborrecido!  

Vamos lá ao que interessa, que isto não é o fórum da sociedade portuguesa de neuropsicologia. Siga lá a resumir o nosso tão complexo cérbero de forma estúpida!

Podemos dividir a nossa mente em 2 grandes modos:

Fazer: modo mais estúpido

Ser: modo menos estúpido

Estes modos podem ser comparados com as mudanças de um carro. Tal como as mudanças, cada modo da mente tem as suas características específicas. Com o decorrer dia, vamos alternando de atividade em atividade, precisando de mudanças diferentes para diferentes tarefas, alternando consequentemente o modo da mente. Semelhante ao uso da caixa de mudanças do carro quando conduzimos no trânsito. No carro, apenas conseguimos ter uma mudança de cada vez engatada, e a mente funciona igual, quando está a operar em certo modo, quando tem um modo engatado, não consegue estar noutro ao mesmo tempo. 

O interessante é aprendermos a identificar em qual dos modos da mente estamos a funcionar e encontrarmos formas de conseguir mudar de um para o outro, consoante o mais apropriado. Por exemplo, conseguirmos identificar quando estamos numa subida íngreme, com o motor em esforço a 20km/hora, e estamos com a 5ª mudança engatada com o carro a morrer por todo o lado. Por muito que colemos o pedal ao fundo, não vai ajudar nadinha a sair do sítio. Mantendo esta mudança, o carro irá acabar por abrandar, parar e desligar-se. É essa consciência para a qual devemos caminhar, de saber engatar a melhor mudança, o melhor estado mental, o mais útil em determinados momentos em que percebemos que o modo em que estamos é totalmente inútil e/ou contraproducente.  

Modo Fazer

função da mente que resolve, faz, está em ação. Um modo hiperativo que procura constantemente atingir objetivos para os quais a mente se auto propôs. Objetivos esses que podem ser externos – fazer uma sandocha, fazer um jogging, viajar para Barcelona – ou internos – sentir-se feliz, não cometer erros, ser uma boa pessoa. 

Para atingir esses objetivos, a estratégia básica de funcionamento deste modo passa pela monitorização de discrepâncias, encontrar diferenças. Primeiro criamos uma ideia de como gostaríamos que as coisas fossem ou de como deveriam ser. De seguida, comparamos com a ideia que temos de como as coisas estão agora. Se houver diferenças entre como as coisas estão e como gostaríamos que estivessem, arrancamos para a elaboração de pensamentos, estratégias e ações para tentar acabar com essas diferenças. Não contentes, vamos monitorizando todo o progresso para verificar se essas diferenças estão realmente a diminuir com os pensamentos e ações que executámos, ajustando o que considerarmos necessário ao nosso plano inicial. Soltamos os fogosquando a nossa ideia de como as coisas estão coincide com a ideia de como gostaríamos que estivessem (e era tão bom que terminasse aqui seus insatisfeitos crónicos).

Este modo especializou-se toda a sua vida numa função: encontrar e resolver problemas. Na sua origem, não há nada de errado com este modo. Pelo contrário, encontrar e resolver problemas no mundo exterior foi o que nos trouxe tão longe e permitiu toda a nossa evolução. Aprendemos a sobreviver, a construir pontes para ligar populações, inventámos o telefone e restantes meios de comunicação para ficarmos mais perto uns dos outros, inventámos a internet para podermos fazer scroll durante 5 horas por dia, maravilhoso! não é?  Ou seja, o modo Fazer é um modo altamente útil e importante. É tão bom, que acabou por se achar demasiado bom e capaz de tudo! É quando se mete em trabalhos que não consegue fazer, para os quais não tem competências nenhumas, que se torna estúpido e as coisas tendem a ir ladeira abaixo.  

Ele não tem culpa nenhuma. É uma estupidez natural deste modo. Resolveu e continua a resolver tantos problemas, em tantas áreas e situações das nossas vidas, que entra naturalmente em serviço quando as coisas não estão como gostaríamos no nosso mundo interno – os nossos sentimentos, pensamentos ou o tipo de pessoa que temos sido nos últimos tempos. 

Exemplo Clássico

O Zé namorou 5 anos com a Joana e a relação terminou esta semana. O Zé terá o seu monitor de discrepâncias a dar sinais de alerta por todos os lados, mostrando-lhe as diferenças entre a realidade atual e o que ele desejava que fosse. Dos desejos que lhe possam surgir, ele pode querer voltar para a relação com a Joana ou, pode querer fazer fortes investidas na jeitosa da Maria que o olha de maneira especial desde o jantar de Natal da empresa. Seja o que for, o que realmente o Zé quer é não se sentir mal nesta difícil fase de fim de relação. Nesta altura o Zé dá voltas à cabeça à procura de soluções. Por ser um pessimista nato, começa a pensar que deverá existir algo de errado nele para que a relação tenha terminado, começa a sentir que o seu destino é acabar sozinho. Agora, acaba de aumentar as discrepâncias entre como se sente e se vê como pessoa e como desejaria ser, não existindo soluções imediatas à vista para resolver as mesmas. As tentativas de diminuir o seu sofrimento acabam de aumentá-lo. O Zé tenta distrair-se do sofrimento e destes pensamentos, mas quando se trata da sua identidade, da sua falta de valor como pessoa, é impossível esquecer o assunto.

O resultado disto é que a mente do Zé continua no Modo Fazer, continuando às voltas na procura de soluções para resolver este sofrimento. Esta constante ruminação em não ser o que desejaria que fosse coloca o Zé ainda mais longe do seu objetivo – sentir-se bem, acabando por confirmar a visão do Zé de não ser a pessoa que deveria para se sentir feliz. 

Um truque para detetarmos que o Modo Fazer poderá estar a meter-se onde não é chamado é quando pensamos ou dizemos algo que contenha as seguintes palavras:

  • “eu devia”, 
  • “eu tenho de”
  • “eu preciso de”

Outra forma de reconhecermos este modo em versão estúpida é quando sentimos a clássica insatisfação crónica. Quando percecionamos esse sentimento de forma recorrente. É uma sensação que reflete o facto de a nossa mente estar focada no processamento de diferenças no que achamos que tem de mudar para as coisas estarem como queremos que estejam. Como este modo se acha tão bom, mesmo quando está a fazer o que não sabe (trabalhar no mundo interno), ele continua a fazê-lo cheio de vontade e estilo. Sendo um incompetente nato nesta secção, não encontra nenhuma solução para o problema, restando-lhe ficar nesta busca estupidamente interminável, levando-nos constantemente a ruminar nos eventos passados, a tentar prever o futuro, deixando-nos pouquíssimo tempo para vivermos no presente.

Modo Ser

Este modo é mais difícil de descrever em palavras. É quase mais fácil dizer o que não é. Em modo geral é o oposto ao Modo Fazer. Este modo não pretende alcançar nenhum objetivo. Não tem a função de deteção de problemas ou de monitorização de discrepâncias. Pelo contrário, este modo foca-se em aceitar e receber o que existe, como existe, sem a pressão imediata de querer alterar o que quer que seja. 

Esta aceitação e acolhimento surgem naturalmente quando não existe a presença de algum objetivo a ser atingido. A nossa atenção não fica focada nos aspetos do presente relacionados com algum objetivo a ser atingido. A experiência do momento presente consegue ser processada na sua plenitude. 

A grande diferença entre estes dois modos está no seu foco da atenção. 

O Modo Fazer, rapta-nos e leva-nos a navegar no passado e no futuro. Vamos ao passado analisar o que correu bem e mal em situações semelhantes à presente. Vamos ao futuro tentar antecipar as consequências das decisões que estamos a tomar, deixando o foco da nossa atenção no presente diminuído. 

O Modo Ser, não nos leva a lado nenhum. Não tem nada para fazer ou sítio para onde ir. Permite-nos focar a atenção na nossa experiência momento a momento. Permite-nos estar completamente no presente, conectados, conscientes do que existe aqui e agora.  

O Modo Ser altera a nossa relação com os pensamentos e sentimentos. Considera-os aspetos existentes do momento presente tal como os sons, cheiros ou cores. Eles passam pela nossa mente, são observados pela nossa consciência e seguem o seu caminho (a arte do mindfulness). Assim, as emoções não ativam diretamente a nossa mente ou corpo para ações que mantenham “boas emoções” ou ações que se livrem de “más emoções”. Nesta lógica, pensamentos como “faz isto, faz aquilo” não se ligam automaticamente a ações ou comportamentos.

Neste modo há uma sensação de liberdade e frescura enquanto os acontecimentos se apresentam, momento a momento. Conseguimos ser responsivos a toda a riqueza e complexidade únicas de cada momento presente.

O Médico Psiquiatra Austríaco Viktor Frankl descreve esse fenómeno na perfeição:

Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço reside o nosso poder de escolha de resposta. Esse é o espaço da nossa liberdade e crescimento.

Ao contrário, o Modo Fazer reduz a multiplicidade do momento presente a um único objetivo, verificar como é que o momento está a contribuir para serem atingidos os meus objetivos. E quando estes não estão do nosso agrado, vimos pelo Zé o que acontece, iniciamos uma série de tentativas para alterar o que consideramos errado, acabando por perpetuar os próprios problemas dos quais nos queremos ver livres.  

Claramente, estes modos são bastante diferentes entre eles, sendo o Modo Ser o bonitinho. Contudo, convém lembrar que apesar de nos apetecer muito andar sempre de mãos dados com este Ser, este não é um estado de alma em que todas as atividades ficam paradas, suspensas e maravilhosas. O modo Fazer e Ser são ambos necessários e essenciais ao nosso bem-estar, desde que não sejam estúpidos e desde que não nos deixemos cair na tentação das doutrinas de uns tantos estúpidos, AMÉN!

Erro básico da prática Mindfulness: meditar com o objetivo de atingir estados de relaxamento. Resultado: passados 5 minutos, começamos a ficar cheios de comichões por todo o corpo, acompanhados com doses elevadas de frustração e raiva. É um erro básico porque a prática de mindfulness não tem o objetivo de relaxar. 


Objetivo

Estimular a nossa capacidade de usar a nossa caixa de mudanças mental de forma mais eficiente possível, usando-a nosso favor. Porque num mundo com uma cultura que estimula, recompensa, constantemente o Modo Fazer, este torna-se naturalmente o nosso modo automático. O truque passa por reconhecermos quando esse modo entra na estupidez: detetando quando estamos em modos de pensamento ruminativo, à volta nos mesmo pensamentos negativos sobre nós, os outros ou o mundo. 

É nessa altura que devemos trazer a nossa atenção para o momento presente, às sensações do nosso corpo, ao que nos rodeia. Movermos a nossa atenção intencionalmente, abrindo liberdade de escolha ao que vamos responder e como vamos responder. Responder, ao invés de reagir. 

Como os modos são incompatíveis, quando um está ativo o outro desliga. No final, trata-se de equilibrarmos estes dois modos nas nossa vidas, de forma consciente e intencional. Quando começamos a dominar estes modos, percebemos que temos oportunidade de escolha, uma voz, e este é muitas vezes o primeiro passo para passarmos saber cuidar melhor do nosso bem-estar em alturas difíceis das nossas vidas, onde pensamentos e humores negativos nos invadem. 

Como detetar que o Modo Fazer está sobreativado:
  • Vives em modo automático (em vez de escolhas conscientes);
  • Relacionas-te com a experiência diária com domínio do pensamento (com poucas sensações diretas);
  • Navegas constantemente no passado e no futuro;
  • Tentas de evitar, escapar ou livrar-te de emoções desagradáveis;
  • Precisas que as coisas sejam diferentes do que são;
  • Consideras os pensamentos como verdadeiros e reais (em vez de eventos mentais que podem ou não corresponder à realidade);
  • Tratas-te de forma dura, bruta e exigente (em vez de cuidares de ti com compreensão e compaixão);

Referências & Leituras Adicionais:
  • Kabat-Zinn, J. “Full Catastrophe Living
  • Segal, Z., Williams, M., Teasdale, J. “Mindfulness-Based Cognitive Therapy for Depression”